Restauro da natureza na Europa: da regulação à prática, oito exemplos mostram o caminho 

Um novo briefing do European Habitats Forum (EHF), publicado em junho de 2026, reúne oito casos concretos de restauro ecológico em diferentes países europeus, demonstrando que os objetivos do Regulamento de Restauro da Natureza da UE (Nature Restoration Regulation, NRR) já estão a ser cumpridos no terreno, antes mesmo de os Estados-Membros submeterem os seus Planos Nacionais de Restauro. 

Um marco jurídico com prazos apertados 

O NRR representa a primeira vez que os Estados-Membros da UE assumem obrigações vinculativas e balizadas no tempo para restaurar ecossistemas degradados, em terra e no mar. A meta é cobrir pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas da UE com medidas de restauro até 2030, alargando-se a todos os ecossistemas que necessitem de recuperação até 2050. Até setembro de 2026, os Estados-Membros têm de apresentar os seus planos nacionais, definindo onde, como e com que recursos o restauro será concretizado. Segundo avaliações da sociedade civil citadas no documento, a preparação já está em curso em muitos países, mas o progresso continua desigual entre eles. 

Restaurar é mais do que proteger 

O briefing sublinha que proteger áreas naturais, por si só, não tem sido suficiente para travar a perda de biodiversidade: muitos habitats protegidos continuam a degradar-se devido à fragmentação, à gestão insuficiente e a pressões como a drenagem, a poluição, o abandono de terras, as espécies invasoras e as alterações climáticas. O restauro é assim apresentado como complementar à proteção, focando-se em processos ecológicos  (regime hídrico, funcionamento do solo, conectividade de habitats, pastoreio natural, polinização) que permitem a recuperação a longo prazo. 

O documento insiste ainda que o restauro deve ser entendido como um investimento preventivo: a degradação dos ecossistemas gera custos reais através de cheias, escassez hídrica e perda de funções ecológicas, e agir cedo é mais eficaz e barato do que gerir os riscos depois de agravados. 

Oito casos, uma mensagem comum 

Os exemplos selecionados cobrem diferentes ecossistemas e países: 

  • Espanha (Castela-Mancha e Aragão): a Rewilding Spain reintroduziu 182 grandes herbívoros semisselvagens, incluindo bovinos Tauros, cavalos selvagens e bisontes europeus, em cerca de 30 mil hectares, restaurando o pastoreio natural como ferramenta de prevenção de incêndios e criando emprego rural. 
  • Alemanha/República Checa: o projeto LIFE for MIRESv restaurou turfeiras e prados húmidos ao longo da fronteira checo-alemã, fechando valas de drenagem e recuperando cerca de 2,4 km de cursos de água, com forte aposta na cooperação transfronteiriça entre agricultores. 
  • Reino Unido (South Devon): o projeto Life on the Edge já restaurou 144 dos 675 hectares previstos de pastagens costeiras ricas em flores, com o objetivo de apoiar a recuperação de 30 espécies de invertebrados ameaçados. 
  • Estónia: a recuperação de dunas cinzentas e charcos temporários permitiu inverter o declínio do sapo-corredor (Epidalea calamita), mostrando que só a restauração de todo o complexo de habitat, e não apenas de fragmentos isolados, garante recuperação populacional real. 
  • Hungria/Roménia: o projeto Na-Tu-Re restaurou 56 hectares de floresta-estepe na Natura 2000 de Debrecen-Hajdúböszörmény, removendo espécies invasoras e mobilizando mais de 2.000 horas de voluntariado jovem. 
  • Espanha (Navarra): a remoção da barragem obsoleta de Molino de Zúñiga, no rio Ega, devolveu conectividade fluvial e já desencadeou um segundo projeto de remoção 8 km a montante, um efeito multiplicador que os autores destacam como especialmente valioso. 
  • Eslováquia: os projetos LIFE Microtus restauraram 43,6 hectares de zonas húmidas na Baixa Danubiana, que hoje cobrem mais de 100 hectares e retêm até 70 milhões de litros de água, com uma campanha de financiamento coletivo que mobilizou mais de mil apoiantes. 
  • Polónia, Alemanha, Bélgica, Países Baixos e Irlanda: o projeto LIFE Multi Peat, liderado pela NABU, testa a recuperação hidrológica de turfeiras degradadas em cinco países, associando restauro a modelos de uso do solo como a paludicultura. 

Seis recomendações para os Estados-Membros 

O briefing termina com seis prioridades para os Planos Nacionais de Restauro: privilegiar medidas com benefícios simultâneos para a natureza e para a resiliência climática; planear à escala da paisagem, e não apenas projeto a projeto; envolver desde o início proprietários, agricultores, autarquias e comunidades locais; garantir financiamento estável e de longo prazo, não apenas apoios pontuais; integrar monitorização científica como ferramenta de gestão adaptativa; e partilhar conhecimento entre Estados-Membros para ultrapassar entraves administrativos e técnicos comuns.