
As Soluções Baseadas na Natureza (NbS) têm vindo a ganhar destaque nas cidades europeias como resposta integrada aos desafios das alterações climáticas, perda de biodiversidade, desigualdade socioespacial e saúde pública. O relatório Europe Roadmap for Urban Nature-Based Solutions* oferece uma análise exaustiva das práticas, políticas e evidências científicas disponíveis, complementada por 21 estudos de caso representativos de várias regiões da Europa. Desenvolvido por uma equipa multidisciplinar de investigadores europeus, o documento identifica avanços, desafios, lacunas de conhecimento e oportunidades emergentes para integrar a natureza como infraestrutura essencial nas cidades.
Dada a rápida urbanização do continente — 75% da população já vive em cidades, podendo chegar a 85% até ao final do século — as NbS emergem como uma ferramenta crucial para reforçar a resiliência urbana e melhorar a qualidade de vida
Principais contributos
A análise destaca que as NbS têm ganhado centralidade como resposta simultânea a múltiplas crises: alterações climáticas, perda de biodiversidade, desigualdades socioespaciais e saúde pública. O estudo revela que a Europa possui um ecossistema político denso, composto por regulamentos, estratégias e programas multiescalares, desde o Pacto Ecológico Europeu até planos municipais. No entanto, apesar da existência de diretrizes robustas, a implementação continua fragmentada devido a limitações institucionais, insuficiências de financiamento e lacunas na monitorização a longo prazo.
A investigação empírica realizada mostra que a produção científica sobre NbS está em rápida expansão, embora apresente assimetrias regionais significativas. Persistem desafios estruturais, como a falta de políticas coerentes para incluir grupos marginalizados nos processos de cocriação, a perceção de risco financeiro associada às NbS e a escassez de métricas padronizadas para avaliar benefícios ecológicos e sociais ao longo do tempo.
Bright Spots e inovações
O relatório identifica casos exemplares (“Bright Spots”), que demonstram a viabilidade de abordagens inovadoras em monitorização ecológica, governança colaborativa, novos modelos financeiros e participação cidadã. Esses exemplos revelam caminhos concretos para superar barreiras e ampliar a escala das NbS, reforçando a necessidade de instrumentos estruturados de planeamento urbano que conciliem ciência, políticas públicas e justiça ambiental.
Exemplo disso é o projecto CLEARING HOUSE (Alemanha), o qual demonstra como a monitorização contínua permite avaliar benefícios ecológicos ao longo do tempo. Em duas antigas áreas industriais — Rheinelbe e Zeche Hugo — foram instalados Marteloscopes, parcelas florestais totalmente inventariadas, onde se recolhem dados sobre espécies arbóreas, biomassa e micro-habitats
Outro dos vários exemplos citados é o projeto Grønne Veje, que introduziu rain beds — canteiros de infiltração — como parte formal do sistema de drenagem urbana. A cidade alocou 900 milhões DKK (cerca de 120 milhões EUR) à empresa pública de água HOFOR para implementar estas “ruas verdes” como infraestrutura técnica reconhecida por lei
O projeto Grønningen–Bispeparken é apresentado como exemplo paradigmático de envolvimento comunitário profundo. Durante cinco anos, equipas de antropólogos, geógrafos e trabalhadores sociais trabalharam intensivamente com os residentes através de reuniões públicas, ferramentas interativas (maquetes, modelos 3D) e vídeos participativos criados por uma artista local. Estas contribuições moldaram diretamente os requisitos do concurso público para o desenho final do parque, demonstrando que processos participativos exigem tempo, recursos e confiança para terem impacto real.
O Europe Roadmap for Urban Nature-Based Solutions sublinha que, embora a Europa já possua o enquadramento institucional necessário, a transformação urbana depende de práticas integradas, de investimento contínuo e de uma cultura de monitorização e coprodução. A consolidação das NbS enquanto infraestrutura urbana essencial exige a articulação entre múltiplos atores e a adoção de abordagens que valorizem equidade, sustentabilidade e resiliência.
*Autores: *Jarumi Kato-Huerta, Eugenia Castellazzi, Oriol Garcia-Antúnez, Davide Geneletti, Christopher Mark Raymond, Natalie Marie Gulsrud, com contribuições de Filipa Grilo, Emma Campbell, Loan Diep e Timon McPhearson .



