Medir a inovação nas cidades europeias: o que revela o novo relatório da Comissão Europeia 

As cidades europeias estão no centro da inovação, da ciência e do desenvolvimento económico. Ao concentrar talentos, universidades, empresas e infraestruturas, os territórios urbanos são hoje motores decisivos da competitividade europeia. No entanto, medir de forma rigorosa e comparável o desempenho científico, tecnológico e de inovação (STI) das cidades continua a ser um grande desafio. 

É precisamente este o ponto de partida do relatório Developing Science, Technology and Innovation (STI) indicators for comparing European cities, publicado pela Comissão Europeia em 2025. O estudo explora a viabilidade de criar indicadores robustos e comparáveis ao nível das cidades, complementando os instrumentos já existentes, como o European Innovation Scoreboard (EIS) e o Regional Innovation Scoreboard (RIS). 

Porque é difícil medir a inovação nas cidades? 

A maioria dos dados disponíveis é recolhida a nível nacional ou regional, e não à escala das cidades. Isto significa que muitas dinâmicas locais ficam invisíveis, dificultando a criação de políticas públicas ajustadas às realidades urbanas. 

O relatório identifica três grandes dificuldades: 

  • Não existe uma definição única de “cidade” que seja igual em todos os países; 
  • Há poucos dados comparáveis disponíveis especificamente para as cidades, sobretudo no que toca a investimento em investigação e inovação; 
  • As diferenças entre métodos e fontes de dados tornam as comparações complexas. 

O que é, afinal, uma cidade? 

Um dos aspetos centrais do relatório é a forma como se define uma cidade para efeitos de análise. São comparadas duas abordagens: 

  • Municípios, que correspondem às fronteiras administrativas tradicionais; 
  • Áreas Urbanas Funcionais, que incluem a cidade e os municípios vizinhos fortemente ligados por deslocações diárias para trabalho ou estudo. 

Esta segunda abordagem revela-se muitas vezes mais próxima da realidade, já que universidades, empresas e centros de inovação estão frequentemente distribuídos por vários municípios da mesma área urbana. 

Que dados podem ser usados? 

O estudo parte dos indicadores já utilizados no Regional Innovation Scoreboard e analisa quais podem ser adaptados à escala das cidades com os dados atualmente disponíveis. São considerados, sobretudo, indicadores relacionados com: 

  • Pessoas que trabalham em ciência e tecnologia; 
  • Produção científica e patentes; 
  • Cooperação entre universidades, empresas e outros países; 
  • Inovação nas empresas, como marcas, design e start-ups; 
  • Digitalização e sustentabilidade ambiental. 

Um exemplo prático: a produção científica 

Para testar estas ideias, o relatório analisa a produção científica de 69 grandes cidades europeias, incluindo todas as capitais e outras cidades com mais de 500 mil habitantes. 

Os resultados mostram que, em muitas cidades, uma parte significativa da investigação científica acontece fora dos limites administrativos do município, mas dentro da sua área urbana mais alargada. Cidades como Bruxelas ilustram bem esta situação: olhar apenas para o município central dá uma imagem incompleta do verdadeiro ecossistema científico. 

O estudo conclui ainda que, em várias cidades, menos de 90% da produção científica da área urbana ocorre no centro da cidade; algumas áreas estão a crescer mais rapidamente fora do núcleo urbano e a forma como se define a cidade influencia diretamente qualquer comparação ou ranking. 

O relatório aponta três ideias-chave a nível da conclusão: 

  1. É possível medir a inovação nas cidades, mas isso exige mais coordenação, investimento e dados harmonizados. 
  1. A forma como se define o território urbano é decisiva para obter resultados fiáveis. 
  1. Os dados devem ser analisados com cuidado, evitando comparações simplistas. 

O que vem a seguir? 

A Comissão Europeia propõe avançar de forma gradual. Primeiro, através de projetos-piloto e estudos mais aprofundados. Depois, alargando o sistema de indicadores com o apoio de novas ferramentas e maior cooperação entre instituições. O relatório sugere ainda a criação de grupos de cidades com características semelhantes, para permitir comparações mais justas e úteis. 

Num momento em que as cidades estão na linha da frente da transição climática, digital e social, ter dados de qualidade sobre inovação é essencial. Este relatório representa um passo importante para ajudar cidades e decisores a compreender melhor onde estão, aprender com outras experiências e tomar decisões mais informadas. 

Leia o relatório na íntegra