Países anfitriões da COP31 revelam prioridades para a conferência de novembro 

A poucos meses da realização da COP31, a próxima Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, os países que lideram a organização do encontro, Turquia e Austrália, apresentaram um conjunto de objetivos que procuram transformar a conferência de Antalya, em novembro, num momento de aceleração da implementação climática. 

As propostas, anunciadas durante as negociações intermédias do clima em Bona, na Alemanha, centram-se em três áreas consideradas estratégicas: eletrificação da economia, redução dos resíduos e melhoria do desempenho energético dos edifícios. A iniciativa surge numa altura em que os governos enfrentam crescente pressão para demonstrar resultados concretos na redução das emissões de gases com efeito de estufa e no cumprimento do Acordo de Paris.  

A meta “35 por 35” 

Entre os objetivos apresentados, destaca-se a chamada meta “35 por 35”, que pretende aumentar para 35% a quota da eletricidade no consumo final de energia mundial até 2035. Atualmente, esse valor situa-se em pouco mais de 20%, segundo estimativas da Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA) e da Agência Internacional da Energia (IEA).  

A proposta assenta na substituição gradual dos combustíveis fósseis por soluções elétricas em setores como os transportes, a indústria e os edifícios. Veículos elétricos, bombas de calor, equipamentos de climatização eficientes e processos industriais eletrificados são apontados como algumas das tecnologias-chave para alcançar esta transformação.  

Os promotores da iniciativa argumentam que a eletrificação representa uma das formas mais eficazes de reduzir a dependência do petróleo, do carvão e do gás natural, enquanto reforça a segurança energética e protege consumidores e empresas da volatilidade dos mercados energéticos. O tema ganhou ainda mais relevância num contexto internacional marcado por tensões geopolíticas e sucessivos choques nos preços da energia.  

Contudo, especialistas e organizações ambientais alertam que os benefícios climáticos da eletrificação dependem da origem da eletricidade consumida. Se a produção elétrica continuar fortemente dependente de combustíveis fósseis, sobretudo do carvão, o impacto na redução das emissões poderá ser limitado. Países como França ou Suécia dispõem já de sistemas elétricos com baixas emissões, enquanto outras economias continuam a depender significativamente de centrais térmicas convencionais. 

Edifícios: eficiência ou intensidade energética? 

Outra das metas anunciadas visa reduzir em 25% a intensidade do consumo energético no setor dos edifícios até 2035. A formulação do objetivo gerou debate entre especialistas, uma vez que versões preliminares da proposta referiam explicitamente um aumento da eficiência energética dos edifícios. 

Embora os dois conceitos estejam relacionados, não são equivalentes. A eficiência energética implica intervenções estruturais, como reabilitação de edifícios, melhoria do isolamento térmico ou modernização de equipamentos. Já a redução da intensidade energética pode ser alcançada através de medidas operacionais de curto prazo, sem necessariamente promover transformações profundas no parque edificado. 

O setor dos edifícios representa cerca de um terço do consumo energético global e continua a ser um dos principais desafios da descarbonização, sobretudo nas áreas urbanas, onde se concentra a maior parte da população mundial.  

Resíduos entram na agenda climática 

Pela primeira vez, a redução dos resíduos surge como uma das prioridades centrais da presidência de uma COP. O objetivo apresentado passa por reduzir para metade o crescimento global da produção de resíduos até 2035. 

Apesar do simbolismo da meta, persistem dúvidas quanto à sua aplicação prática. A presidência da COP31 ainda não clarificou qual será o ano de referência utilizado nem o âmbito exato dos resíduos abrangidos. 

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), a produção mundial de resíduos urbanos poderá aumentar de cerca de 2,1 mil milhões de toneladas por ano para 3,8 mil milhões até 2050, caso não sejam adotadas medidas significativas de prevenção e gestão sustentável. A redução dos resíduos é vista como uma ferramenta importante para diminuir emissões de metano, reduzir a poluição por plásticos e aliviar a pressão sobre ecossistemas e recursos naturais. 

O desafio do financiamento 

Para apoiar a concretização destas metas, a presidência da COP31 anunciou a intenção de criar uma iniciativa designada Climate Implementation Bridge (CIB). O mecanismo não será um novo fundo climático, mas pretende funcionar como uma plataforma de cooperação para aproximar governos, instituições financeiras e parceiros técnicos. 

A proposta surge num momento em que o financiamento climático continua a ser um dos temas mais sensíveis das negociações internacionais. Muitos países em desenvolvimento defendem que os compromissos de mitigação e adaptação só poderão ser cumpridos se forem acompanhados por recursos financeiros adequados, transferência de tecnologia e reforço de capacidades. 

Da definição de metas à implementação 

A apresentação destas prioridades revela uma mudança de foco no processo climático internacional. Depois de anos marcados pela definição de objetivos globais, a COP31 pretende centrar-se cada vez mais na implementação de soluções concretas. 

A eletrificação da economia, a melhoria do desempenho energético dos edifícios e a redução dos resíduos são áreas onde existem tecnologias disponíveis e potencial de impacto imediato. No entanto, o sucesso destas iniciativas dependerá da capacidade dos países em transformar metas voluntárias em políticas públicas, investimentos e projetos concretos.