
A redução do consumo de energia, a renovação dos edifícios e a expansão das energias renováveis podem produzir benefícios que vão além da diminuição das emissões de gases com efeito de estufa. É esta a principal conclusão do relatório Europe’s Climate Dividend: Economic benefits, jobs, health and lower energy costs, publicado em outubro de 2026 pela coligação Plan4Climate e pela CAN Europe, uma rede europeia de organizações da sociedade civil dedicadas à ação climática.
O estudo analisa os potenciais efeitos económicos e sociais de um cenário de descarbonização compatível com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C, comparando-o com um cenário de evolução tendencial. A análise considera indicadores como os custos energéticos, o emprego, a atividade económica, a mortalidade evitável e os dias de trabalho perdidos por doença.
Mais eficiência energética, maiores benefícios potenciais
De acordo com o relatório, as medidas de poupança de energia poderão gerar mais de 826 mil milhões de euros em benefícios anuais monetizados na União Europeia até 2030. Em 2050, o valor poderá aproximar-se dos dois biliões de euros por ano.

Estas estimativas incluem benefícios associados à redução dos custos energéticos, à melhoria da saúde pública, à diminuição dos dias de trabalho perdidos por doença e aos danos climáticos globais evitados através da redução das emissões. O estudo estima ainda que as medidas de poupança de energia poderão apoiar mais de 8,5 milhões de postos de trabalho equivalentes a tempo inteiro em 2030, dos quais cerca de 6,5 milhões associados à construção e à renovação de edifícios.
A saúde pública é outra das dimensões analisadas. A combinação de habitações mais bem isoladas e menor exposição à poluição atmosférica poderá evitar cerca de 34 mil mortes por ano na UE até 2030, segundo o modelo utilizado. A estimativa não inclui, entre outros fatores, a redução da mortalidade associada às ondas de calor.
Os resultados apontam, assim, para benefícios potenciais em diferentes áreas, embora a sua concretização dependa da implementação das medidas consideradas no cenário analisado.
Portugal: poupança energética, emprego e saúde
A análise inclui também fichas nacionais, com estimativas para Portugal. Segundo o relatório, a aplicação do cenário de descarbonização considerado poderá gerar 8,5 mil milhões de euros em benefícios monetizados por ano até 2030, aumentando para 28,6 mil milhões de euros anuais em 2050.
No que respeita aos custos energéticos, o estudo estima uma redução equivalente a 280 euros por pessoa em 2030 e 1.069 euros em 2050. Estes valores correspondem a estimativas de poupança no cenário modelado, não a reduções garantidas nas faturas de cada consumidor.
O relatório identifica igualmente benefícios potenciais no emprego e na saúde. Para 2030, estima cerca de 151 mil anos de trabalho associados ao emprego direto, 678 mortes evitadas por ano e menos 66 mil dias de trabalho perdidos devido a doença.
Estes indicadores ilustram a diversidade de efeitos que as medidas de eficiência energética e de transição energética podem produzir. A sua interpretação deve, no entanto, ter em conta os pressupostos do modelo e a natureza das estimativas apresentadas.
A importância das políticas públicas e da implementação
O relatório destaca o papel da renovação energética dos edifícios na redução do consumo de energia e na melhoria das condições de conforto térmico. A intervenção neste setor pode contribuir também para reduzir a exposição a temperaturas interiores inadequadas e aliviar os encargos energéticos das famílias.
A distribuição destes benefícios não é automática. O investimento inicial necessário para renovar uma habitação ou instalar equipamentos mais eficientes pode constituir um obstáculo para famílias com menores rendimentos. Por isso, o estudo salienta a importância de políticas públicas que permitam alargar o acesso às medidas de eficiência energética e assegurar uma transição socialmente justa.
A análise reconhece ainda limitações: os modelos produzem estimativas à escala europeia e nacional, não permitindo determinar como os benefícios se distribuem entre grupos de rendimento ou regiões. Além disso, alguns efeitos ambientais, sociais e económicos não são quantificados, e os danos económicos provocados pelas alterações climáticas na Europa não estão incluídos no total apresentado.
Publicado num contexto de debate sobre os custos e o ritmo da transição energética, o relatório procura contribuir para a avaliação dos seus efeitos para além da redução de emissões. Os resultados sugerem que a eficiência energética e a descarbonização podem representar oportunidades económicas e sociais, cuja concretização dependerá das políticas adotadas, do investimento realizado e da forma como os benefícios são distribuídos.



