Falta de mão de obra qualificada ameaça travar a transição energética, alerta a IEA 

Um novo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em conjunto com a Comissão Europeia e a Clean Energy Ministerial, mostra que o emprego na área das energias renováveis, redes elétricas e eficiência energética está a crescer a um ritmo sem precedentes, mas a oferta de trabalhadores qualificados não está a acompanhar essa procura. O estudo, que combina modelação de emprego da IEA com uma nova análise de anúncios de emprego online e inquéritos a mais de 700 empresas, formadores e trabalhadores do setor, foi elaborado com base em dois workshops presenciais realizados em Paris, em maio de 2025 e março de 2026. 

Um setor em forte expansão 

Em 2024, o emprego energético global cresceu 2,2%, ou seja, quase o dobro da taxa média da economia (1,3%), impulsionado pelo investimento em infraestruturas. Desde 2019, o setor energético tem criado, em média, mais de um milhão de postos de trabalho por ano, um salto significativo face aos cerca de 300 mil empregos anuais criados entre 2015 e 2019. 

O setor elétrico tornou-se o maior empregador do setor energético, com 22,6 milhões de trabalhadores em 2024. Dentro deste universo, o emprego em energias renováveis, redes e eficiência energética cresceu, em média, 2,8% ao ano entre 2019 e 2024, representando já quase 40% de todo o emprego energético mundial. 

Os números por subsetor são elucidativos: 

  • Solar fotovoltaico: 5 milhões de empregos em 2024, com 309 mil novos postos de trabalho só nesse ano, à boa boleia dos 540 GW de nova capacidade instalada. A China concentra 60% da força de trabalho solar mundial. 
  • Eólica: 1,7 milhões de empregos, com um crescimento mais modesto (3%), penalizado por atrasos e cancelamentos de projetos offshore na Europa. 
  • Redes elétricas: quase 8,5 milhões de trabalhadores, com um investimento global de 390 mil milhões de dólares em 2024. 
  • Eficiência energética: 14,3 milhões de empregos, repartidos entre iluminação e eletrodomésticos eficientes, bombas de calor, eficiência industrial e reabilitação de edifícios. 

Segundo o cenário de referência da IEA (STEPS), estes três subsetores em conjunto deverão empregar 35 milhões de pessoas até 2035, mais 5,6 milhões do que em 2024. 

O paradoxo central: crescer sem gente qualificada para o fazer 

É aqui que o relatório acende o alerta mais forte: 66% das empresas destes subsetores já reportam escassez de mão de obra e de competências, segundo o Inquérito à Indústria da IEA de 2025. Mais de 40% das empresas inquiridas afirma que essas dificuldades de contratação já se traduzem em atrasos de projetos, prazos mais longos e derrapagens de custos. 

A análise de anúncios de emprego online, feita pela primeira vez pela IEA para este relatório, mostra que a procura de trabalhadores nestas áreas mais do que quintuplicou entre 2019 e 2024, ou seja, o dobro do ritmo da economia em geral. Quatro em cada dez anúncios procuram técnicos e trabalhadores especializados (por exemplo, instaladores de painéis solares, eletricistas ou técnicos de turbinas eólicas), profissões que exigem formação vocacional ou qualificações técnicas avançadas, com prazos de formação mais longos do que outras áreas. 

O problema tende a agravar-se: a força de trabalho do setor está a envelhecer, sobretudo nas redes elétricas, onde, nas economias avançadas, por cada jovem com menos de 25 anos que entra no setor há 1,4 trabalhadores a aproximarem-se da reforma, um rácio muito acima da média da economia em geral. 

Três barreiras identificadas 

O relatório aponta três obstáculos principais ao desenvolvimento de uma força de trabalho qualificada e em número suficiente: 

  1. Baixa atratividade das carreiras energéticas: apenas 35% dos trabalhadores inquiridos classificam os empregos na energia limpa como empregos de qualidade, com boas condições e boa remuneração. 
  1. Formação limitada e pouco acessível: mais de metade dos formadores inquiridos não está confiante de que a sua capacidade atual consiga responder à procura nos próximos cinco anos. Custos de formação elevados, perda de salário durante a formação e falta de acesso a crédito são os principais entraves financeiros identificados. 
  1. Desalinhamento entre políticas energéticas e planeamento da força de trabalho: menos de 25% das empresas afirma ter qualquer articulação com entidades formadoras, e apenas cerca de 40% considera que os sistemas nacionais de certificação estão alinhados com as necessidades da indústria. 

Mulheres e jovens continuam sub-representados 

As mulheres representam apenas cerca de 20% da força de trabalho energética global, caindo para menos de 5% em algumas profissões técnicas. Entre os principais obstáculos identificados nos workshops da IEA estão preocupações de segurança, falta de equipamento de proteção adequado e falta de flexibilidade horária e apoio à parentalidade. As mulheres ocupam apenas 18% dos cargos de gestão de topo no setor energético, contra 25% na economia em geral. 

Recursos digitais e IA: uma nova fronteira de competências 

O relatório dedica também atenção crescente às competências digitais e de inteligência artificial. A quota de trabalhadores do setor elétrico com competências de engenharia de IA é cerca de metade da observada no setor tecnológico. Por sua vez, as empresas de tecnologia já contrataram 30% mais trabalhadores com competências energéticas desde 2022, alimentadas em parte pela necessidade de garantir energia para centros de dados, o que agrava a concorrência por talento. 

O que a IEA recomenda 

O relatório sistematiza um conjunto de medidas de política pública já testadas em vários países: financiamento de formação gratuita ou a baixo custo (como o Sustainable Jobs Training Fund do Canadá), compensação salarial durante períodos de requalificação (como na Dinamarca), parcerias entre indústria e formadores para alinhar currículos com as necessidades reais do mercado (como a nova certificação europeia para instaladores solares), e programas dirigidos a jovens e mulheres para alargar a base de recrutamento. 

O que fica claro neste relatório é que na ausência de um investimento decisivo e coordenado em formação, de atratividade das carreiras e de planeamento articulado entre políticas energéticas e de emprego, a escassez de trabalhadores qualificados poderá tornar-se um dos principais entraves ao ritmo da transição energética mundial. 

Aceda ao relatório aqui