IRENA: eletricidade deve chegar a 35% do consumo energético mundial até 2035 

Agência Internacional das Energias Renováveis (IRENA) publicou um novo relatório que aponta a eletrificação e o reforço das redes elétricas como os dois pilares que vão determinar a velocidade da transição global para longe dos combustíveis fósseis. O documento, “Transitioning Away from Fossil Fuels: A roadmap powered by renewables, electrification and grid enhancements serve de base analítica ao Roteiro para a Transição Away from Fossil Fuels (TAFF), lançado pela presidência brasileira da COP30. 

Os fósseis ainda dominam, mas a tendência inverte-se 

Segundo a análise da IRENA, os combustíveis fósseis representavam, em 2023, mais de 80% do abastecimento energético primário global e cerca de 60% do consumo final de energia. Para manter a trajetória compatível com 1,5°C, a eletricidade terá de passar a representar 35% do consumo final de energia mundial até 2035 e mais de 50% até 2050, tornando-se, assim, o principal vetor energético do sistema. 

Esta transformação exige uma expansão massiva da capacidade renovável instalada: dos níveis atuais para cerca de 18,4 terawatts (TW) em 2035 e 38,2 TW em 2050. 

Eletrificação desigual entre setores 

O relatório detalha ritmos diferentes consoante o setor de utilização final: 

  • Edifícios: o setor mais avançado, com a eletrificação a atingir 55% em 2035 e mais de 75% em 2050, impulsionada pelas bombas de calor, pela climatização e pela eletrificação da cozinha e do aquecimento de água. 
  • Indústria: cerca de 35% em 2035 e mais de 40% em 2050, através da eletrificação direta de processos de baixa e média temperatura e, indiretamente, via hidrogénio verde nos setores mais difíceis de descarbonizar. 
  • Transportes:  o setor com o crescimento relativo mais rápido, de apenas 1% atualmente para 15% em 2035 e mais de 45% em 2050, sobretudo através de veículos ligeiros e autocarros elétricos. 

As trajetórias variam também por região: a União Europeia deverá liderar com 64% de eletrificação em 2050, enquanto África deverá atingir cerca de 50%, beneficiando do crescimento do acesso à energia e da transição da biomassa tradicional para bioenergia moderna. 

As redes elétricas como potencial estrangulamento 

Um dos alertas centrais do relatório é o risco de as redes se tornarem o principal obstáculo à transição. Atualmente, cerca de 2.500 gigawatts (GW) de projetos, sobretudo solares, eólicos e de armazenamento, aguardam ligação à rede em todo o mundo. 

Para acompanhar a eletrificação, o investimento médio anual em redes terá de subir dos atuais 0,5 biliões de dólares (2025) para cerca de 1 bilião de dólares por ano entre 2026 e 2035, e 1,2 biliões por ano entre 2036 e 2050, totalizando 29 biliões de dólares em investimento acumulado até meados do século. Paralelamente, a capacidade de armazenamento instalada deverá crescer de 416 GW (2025) para 2.530 GW em 2035 e 6.859 GW em 2050, e a flexibilidade diária da procura terá de passar de 7% (2019) para mais de 13% em 2035 e 30% em 2050. 

Um apelo a metas globais coordenadas 

O relatório defende a criação de uma meta global de eletrificação para 2035, complementada por uma meta de desenvolvimento de redes, que permita orientar a ação coordenada entre oferta e procura, deixando margem para que cada país defina o seu próprio ritmo e prioridades. 

Para o Diretor-Geral da IRENA, Francesco La Camera, a eletrificação “representa um dos motores mais fiáveis de transformação estrutural” dos sistemas energéticos, mas exige “investimentos sem precedentes” em geração renovável, redes, armazenamento e digitalização. 

O documento insere-se num conjunto mais amplo de compromissos internacionais recentes (o Consenso dos Emirados Árabes Unidos (COP28), a Promessa Global de Armazenamento e Redes (COP29) e o Compromisso de Belém para Combustíveis Sustentáveis (COP30)) que a IRENA identifica como bases já estabelecidas para esta nova fase da transição energética. 

Relatório na íntegra aqui