
As cidades europeias estão cada vez mais expostas a riscos para a saúde associados às alterações climáticas, desde o calor extremo e os incêndios florestais à expansão das condições favoráveis à transmissão de doenças como a dengue. Ao mesmo tempo, embora existam sinais de progresso na adaptação e na mitigação, persistem limitações significativas na capacidade de resposta.
Esta é uma das principais conclusões do 2026 Europe Cities Report of the Lancet Countdown on Health and Climate Change, publicado na revista The Lancet Public Health e desenvolvido por 58 investigadores de 31 instituições académicas.
Pela primeira vez, o relatório reúne um conjunto sistemático de 28 indicadores que permitem analisar a relação entre alterações climáticas e saúde ao nível das cidades. A análise abrange até 885 cidades de 32 países europeus, embora a disponibilidade de dados varie entre indicadores.
Os indicadores estão organizados em cinco áreas: exposição e impactos climáticos; adaptação; mitigação; economia e financiamento; e envolvimento público e político.
Cidades cada vez mais expostas a riscos climáticos
Os resultados mostram um agravamento de vários riscos climáticos com consequências para a saúde nas cidades europeias.
O perigo de incêndios florestais aumentou particularmente nas cidades do sul da Europa, enquanto a adequação climática à transmissão da dengue registou o maior crescimento nas cidades da Europa de Leste, com um aumento de 369,3% entre os períodos de referência analisados. Também a exposição a pólenes alergénicos aumentou em várias regiões europeias, com tendências particularmente marcadas para diferentes espécies nas cidades do sul e do leste europeu.
Um dos indicadores mais expressivos é a mortalidade associada ao calor. Entre 2000–2004 e 2020–2024, esta aumentou em 834 das 845 cidades para as quais existiam dados comparáveis, correspondendo a um aumento médio de 82 mortes por milhão de habitantes por ano. Os maiores aumentos foram observados em cidades gregas e croatas, incluindo Trikala, Xanthi e Pula.
Adaptação: existem progressos, mas persistem lacunas
O relatório identifica sinais de que as cidades estão a implementar medidas para responder aos riscos climáticos.
Em 88,2% das 533 cidades analisadas, a evolução da cobertura de área foliar esteve associada a uma redução da intensidade da ilha de calor superficial durante o verão. O estudo identifica também progressos na cobertura arbórea e nos espaços verdes urbanos, embora estes variem significativamente entre regiões.
Na mobilidade, permanecem lacunas importantes. A ausência de infraestrutura ciclável com sombra é particularmente evidente nas cidades da Ásia Ocidental, incluindo a Turquia e Chipre.
Entre as cidades europeias da OMS que responderam ao inquérito CDP-ICLEI, 82,5% tinham realizado uma avaliação de risco e vulnerabilidade climática em 2024. Uma proporção semelhante tinha estabelecido metas de adaptação: 84% das cidades, com uma média de seis metas por cidade e um ano-alvo mediano de 2030.
Contudo, apenas 7,3% das metas de adaptação incidiam diretamente sobre doenças infeciosas. E, entre as ações de adaptação identificadas, apenas 39,2% reportavam explicitamente benefícios para a saúde pública.
Mitigação: diferenças significativas entre regiões
Também na redução das emissões existem diferenças consideráveis entre cidades e regiões europeias.
As cidades do norte da Europa apresentam os maiores progressos na transição para sistemas energéticos de baixo carbono, enquanto as cidades da Ásia Ocidental, incluindo as da Turquia e de Chipre, apresentam resultados menos favoráveis em vários indicadores de mitigação.
Nestes territórios, as emissões de gases com efeito de estufa por habitante aumentaram, acompanhadas por níveis elevados de mortalidade atribuível à poluição por partículas finas e por menor acesso a infraestruturas de transporte sustentável.
Em 2023, o setor residencial foi responsável por 38% da mortalidade urbana atribuível à exposição a PM2,5. O impacto foi particularmente elevado nas cidades da Europa de Leste, onde a mortalidade associada à combustão de combustíveis sólidos foi mais de três vezes superior à registada nas cidades nórdicas.
Financiamento continua a ser uma barreira
A capacidade financeira e técnica é também identificada como um dos obstáculos à implementação de medidas de adaptação e mitigação.
Entre os projetos analisados que procuravam financiamento para responder a riscos climáticos com impacto na saúde, 41,2% reportaram limitações de capacidade financeira, enquanto 29% identificaram simultaneamente limitações financeiras e técnicas.
As necessidades de financiamento concentram-se sobretudo em áreas como os transportes, os edifícios e as energias renováveis. Apenas 0,5% dos projetos planeados incidiam diretamente sobre sistemas e serviços de saúde.
O relatório chama ainda a atenção para os custos associados aos impactos climáticos sobre a saúde. Em 2020, os custos de saúde atribuíveis a dietas pouco saudáveis, incluindo o consumo de carne e produtos lácteos, foram estimados em 160 mil milhões de euros a nível das cidades analisadas.
Clima e saúde ainda não estão suficientemente ligados no debate público
Uma das conclusões relevantes do relatório diz respeito à forma como a relação entre clima e saúde é abordada no debate científico, político, empresarial e mediático.
A produção científica sobre clima e saúde nas cidades europeias aumentou significativamente nas últimas décadas, mas continua concentrada sobretudo nas grandes cidades da Europa ocidental e setentrional. As cidades mais pequenas e as regiões orientais permanecem menos estudadas.
Na esfera política, a interseção entre alterações climáticas e saúde continua a ter uma expressão reduzida. No Parlamento Europeu, as referências a saúde e clima são mais frequentes em discursos classificados como rurais do que nos classificados como urbanos.
Também nas redes sociais de líderes políticos europeus, a relação entre clima e saúde permanece pouco presente.
Já nos meios de comunicação social, a ligação é mais evidente: a análise de 287 662 artigos sobre clima, publicados entre janeiro de 2023 e agosto de 2025 em 175 jornais online de 40 países europeus, concluiu que 24% mencionavam questões de saúde.
Ainda assim, a maioria das notícias sobre alterações climáticas continua a não abordar a dimensão da saúde.
O que significa para as cidades?
Os resultados do relatório apontam para a necessidade de reforçar a capacidade das cidades para antecipar e responder aos impactos climáticos sobre a saúde. Entre as prioridades identificadas estão o reforço dos sistemas de alerta precoce e dos planos de resposta ao calor, o desenvolvimento de espaços verdes e infraestrutura urbana que contribuam para reduzir a exposição ao calor, e a aceleração da redução das emissões nos setores da energia e dos transportes.
Estas medidas podem produzir benefícios simultâneos para o clima e para a saúde pública, nomeadamente através da melhoria da qualidade do ar, da redução da exposição ao calor e da promoção de formas de mobilidade mais sustentáveis.
O relatório destaca também a importância de garantir que as cidades mais pequenas e as populações mais vulneráveis não ficam de fora da transição para economias de baixo carbono.
Os autores defendem a necessidade de integrar a saúde de forma mais sistemática nas políticas climáticas e urbanas e de melhorar a monitorização da relação entre exposição, vulnerabilidade, ação climática e resultados de saúde.
A articulação entre clima e saúde constitui, assim, também um desafio de governação: exige maior integração entre políticas de ambiente, energia, mobilidade, planeamento urbano e saúde pública, bem como uma maior capacidade das cidades para transformar conhecimento e dados em ação.



