As cidades são responsáveis por mais de dois terços das emissões globais de CO₂, revela novo estudo 

Um novo estudo de investigadores da Northern Arizona University vem clarificar uma das questões mais relevantes para a política climática global: qual é, afinal, a verdadeira quota-parte das cidades nas emissões mundiais de gases com efeito de estufa? 

A resposta, até agora imprecisa e disputada na literatura científica, aponta para um intervalo entre 63,6% e 69,9% das emissões territoriais globais de CO₂ de origem fóssil, dependendo da forma como se delimitam geograficamente as áreas urbanas. Se forem consideradas as emissões em base de consumo, ou seja, todas as emissões associadas ao que os habitantes de uma cidade consomem, independentemente de onde foram produzidas, o valor pode chegar a 79,3%. 

O estudo, liderado por Kevin Gurney, foi publicado em junho de 2025 na plataforma Research Square e encontra-se ainda em fase de pré-publicação, aguardando revisão científica por pares. Ainda assim, a robustez metodológica do trabalho, que utiliza um modelo inovador de machine learning designado Vulcan-UrbanML para estimar as emissões de CO₂ de origem fóssil em cerca de 48.000 cidades em todo o mundo, entre 2010 e 2022, torna-o uma referência relevante no debate sobre o papel das cidades na transição climática. 

Porque é que os números anteriores divergiam tanto? 

A falta de consenso sobre a quota das cidades nas emissões globais não era acidental. Os estudos anteriores chegavam a resultados muito diferentes (entre 35% e 76%) consoante os dados utilizados, os setores incluídos e, sobretudo, a forma como se definiam os limites geográficos das cidades. Um estudo que considere apenas o núcleo urbano denso chega a conclusões muito distintas de outro que inclua as zonas periurbanas e suburbanas. 

O novo modelo resolve parte desta ambiguidade ao calcular as emissões para quatro definições diferentes de fronteira urbana em simultâneo, permitindo comparações mais transparentes e robustas. 

As cidades crescem em emissões, mas de forma desigual 

Entre 2010 e 2022, as emissões urbanas globais cresceram a uma taxa média de cerca de 0,9% ao ano. Mas esta média esconde dinâmicas regionais muito distintas. 

Na Ásia e no Pacífico em desenvolvimento, que concentra 52% das emissões urbanas globais, o crescimento foi de 2,3% ao ano, impulsionado pela expansão urbana e pelo aumento do consumo energético per capita. Nos países desenvolvidos, pelo contrário, as emissões urbanas caíram 1,1% ao ano, sugerindo que economias de escala e políticas de descarbonização começam a produzir efeitos. 

A quota urbana no total global cresceu 1,4 pontos percentuais ao longo do período analisado, o que significa que as cidades estão, progressivamente, a concentrar uma proporção ainda maior das emissões planetárias. 

Um dos dados mais ilustrativos do estudo diz respeito à concentração de emissões num pequeno número de cidades. Guangzhou e Xangai, na China, emitem em conjunto o equivalente ao total nacional da Alemanha. As 15 cidades com maiores emissões igualam as da Índia, e as 42 primeiras equivalem às dos Estados Unidos. 

O que muda com estes resultados? 

Do ponto de vista da política climática, o estudo reforça um argumento que tem ganho força nos últimos anos: as cidades não podem ser tratadas como atores secundários na transição para a neutralidade climática. Concentram a maioria da população, da atividade económica e das emissões e são também o nível de governo onde muitas das soluções podem ser implementadas com maior rapidez. 

O estudo encontra-se disponível em pré-publicação na plataforma Research Square e ainda não foi sujeito a revisão científica por pares. 

Leia o estudo na íntegra aqui