
A combinação entre energia solar, eólica e sistemas de armazenamento em baterias está a aproximar-se rapidamente de um novo patamar: fornecer eletricidade renovável de forma contínua, estável e competitiva, durante 24 horas por dia. A conclusão é de um novo relatório da International Renewable Energy Agency (IRENA), que aponta para uma queda acelerada dos custos das chamadas soluções “firm renewables” (sistemas híbridos capazes de garantir fornecimento contínuo de energia limpa).
O estudo, intitulado 24/7 Renewables: The Economics of Firm Solar and Wind, analisa a evolução dos custos da energia solar fotovoltaica, da energia eólica e dos sistemas de armazenamento em baterias (BESS), concluindo que a combinação destas tecnologias pode transformar estruturalmente os sistemas energéticos nas próximas décadas.
Renováveis já são a forma mais barata de produzir eletricidade
Segundo o relatório, os custos da energia renovável caíram drasticamente nos últimos anos. Entre 2010 e 2024, os custos de instalação da energia solar fotovoltaica diminuíram 87%, enquanto a energia eólica terrestre registou uma redução de 55%. Já os sistemas de armazenamento em baterias tiveram uma queda ainda mais acentuada: 93% no mesmo período.
Em 2024, a energia eólica onshore apresentou um custo médio global de 35 dólares por megawatt-hora (MWh), seguida da solar fotovoltaica, com 44 dólares/MWh. Segundo a IRENA, 91% da nova capacidade renovável instalada no mundo já produz eletricidade a custos inferiores às alternativas fósseis mais baratas.
Mas o estudo alerta que olhar apenas para o custo de produção deixou de ser suficiente. “O desafio já não é apenas produzir energia renovável barata, mas garantir que essa energia está disponível quando e onde é necessária”, refere o relatório.
É precisamente aqui que entram os sistemas híbridos com armazenamento em baterias. A IRENA explica que a integração de baterias permite armazenar excedentes de produção solar e eólica para utilização posterior, reduzindo a intermitência típica destas fontes de energia.
Segundo o relatório, projetos que combinam solar, eólica e armazenamento conseguem já fornecer eletricidade renovável quase contínua, com níveis de fiabilidade próximos dos 95%.
Os custos destas soluções estão também a cair rapidamente. Em regiões com elevada radiação solar e bons recursos eólicos, os sistemas híbridos já conseguem fornecer energia renovável contínua a custos entre 46 e 71 euros /MWh em 2025.
A projeção da IRENA aponta para novas reduções de cerca de 30% até 2030 e até 40% até 2035, podendo alguns dos melhores projetos atingir custos inferiores a 43 euros/MWh.
Crescimento da procura elétrica acelera interesse por sistemas híbridos
O relatório identifica vários fatores que estão a acelerar esta transformação. O aumento da eletrificação da economia, a expansão dos centros de dados, o crescimento da inteligência artificial e a necessidade de descarbonizar indústria e transportes estão a aumentar rapidamente a procura de eletricidade fiável e disponível 24 horas por dia.
Ao mesmo tempo, os recentes choques geopolíticos e a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis reforçaram a procura por sistemas energéticos mais resilientes e independentes de mercados internacionais.
Segundo a IRENA, as renováveis oferecem uma vantagem estratégica crescente: os recursos são locais, os custos operacionais são baixos e os preços tornam-se menos dependentes da volatilidade dos combustíveis fósseis.
Europa enfrenta custos mais elevados
O relatório identifica, no entanto, diferenças significativas entre regiões.
A Europa continua a apresentar custos mais elevados para projetos renováveis híbridos devido a fatores como custos laborais, processos de licenciamento demorados, dificuldades de ligação à rede elétrica e limitações de espaço para novos projetos.
Ainda assim, o estudo refere que o mercado europeu está a evoluir rapidamente para soluções híbridas devido ao aumento das horas com preços de eletricidade próximos de zero ou negativos em períodos de elevada produção solar.
Segundo a IRENA, o modelo tradicional de projetos solares isolados começa a perder competitividade em vários mercados europeus, favorecendo investimentos em sistemas com armazenamento integrado.
Mercado e políticas públicas ainda são obstáculos
Apesar da evolução tecnológica e da queda dos custos, o relatório alerta que muitos mercados elétricos ainda não valorizam adequadamente a flexibilidade e a capacidade de fornecimento contínuo oferecida pelos sistemas híbridos.
A agência defende reformas regulatórias e novos mecanismos de mercado capazes de acelerar a integração de armazenamento e de soluções renováveis “24/7”.
Além disso, sublinha que os atrasos nos licenciamentos, os constrangimentos de ligação às redes e os processos administrativos continuam a representar obstáculos relevantes à expansão destas tecnologias, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos.
O relatório conclui que as energias renováveis deixaram de ser apenas uma alternativa sustentável e estão a tornar-se também uma solução economicamente competitiva para garantir fornecimento contínuo, seguro e previsível de eletricidade.



