
A biodiversidade deixou de ser um tema exclusivo de cientistas, ambientalistas ou especialistas em conservação. Hoje, para a esmagadora maioria dos europeus, proteger a natureza é uma questão de saúde, economia, qualidade de vida e até de segurança climática.
Esta é uma das principais conclusões do mais recente Eurobarómetro Especial sobre as atitudes dos europeus em relação à biodiversidade, divulgado pela Comissão Europeia. O estudo revela um consenso raramente observado em matérias ambientais: 96% dos europeus consideram que travar a perda de biodiversidade é importante porque existe uma responsabilidade moral de proteger a natureza, enquanto 95% reconhecem que a saúde e o bem-estar humano dependem diretamente de ecossistemas saudáveis.
Contudo, o que mais se destaca nos resultados é que a biodiversidade deixou de ser encarada apenas como uma causa ambiental. Para 94% dos cidadãos da União Europeia, a natureza é essencial para o desenvolvimento económico de longo prazo e para o combate às alterações climáticas. Outros 93% reconhecem que a biodiversidade é indispensável para a produção de alimentos, matérias-primas e medicamentos.
Portugal entre os países mais pró-biodiversidade da Europa
Se a média europeia já demonstra um forte compromisso com a proteção da natureza, Portugal destaca-se de forma consistente em praticamente todos os indicadores analisados. Os portugueses estão entre os cidadãos europeus que mais associam biodiversidade e bem-estar, com 99% a concordarem que a saúde humana depende da natureza. O mesmo valor é registado relativamente à importância da biodiversidade para a economia de longo prazo.
Portugal surge igualmente entre os países mais conscientes das ameaças que recaem sobre os ecossistemas. Cerca de 98% dos portugueses consideram a poluição do ar, da água e dos solos uma ameaça à biodiversidade, enquanto 98% apontam os desastres causados pelo ser humano como um risco significativo. Já as alterações climáticas são identificadas como ameaça por 95% dos inquiridos portugueses, o valor mais elevado da União Europeia.
Os resultados revelam ainda uma forte valorização das áreas protegidas. Em Portugal, 96% dos inquiridos consideram que estas são importantes para mitigar os impactos das alterações climáticas, um dos valores mais elevados registados entre os Estados-Membros.
A natureza já não é vista como um obstáculo ao desenvolvimento
Talvez a conclusão mais relevante do estudo esteja precisamente na forma como os europeus encaram a relação entre proteção ambiental e desenvolvimento económico.
Durante décadas, o debate público foi frequentemente apresentado como uma escolha entre crescimento económico e conservação da natureza. Os resultados do Eurobarómetro mostram que essa dicotomia está a perder força.
Quase metade dos europeus considera que projetos económicos que provoquem destruição ou degradação de áreas protegidas devem simplesmente ser proibidos. Apenas 9% entendem que o desenvolvimento económico deve prevalecer sobre a conservação da natureza.
Em Portugal, esta posição é ainda mais expressiva: 70% dos inquiridos defendem que projetos que danifiquem áreas protegidas não devem ser autorizados, o valor mais elevado de toda a União Europeia, a par de Itália e acima da média comunitária.
O desafio já não é convencer. É agir.
Apesar do apoio esmagador à proteção da biodiversidade, o estudo identifica um paradoxo relevante. Embora 83% dos europeus já tenham ouvido falar do termo “biodiversidade”, apenas 55% afirmam conhecer efetivamente o seu significado. Além disso, 58% nunca ouviram falar da Rede Natura 2000, o principal instrumento europeu de conservação da natureza.
Por outro lado, os cidadãos são claros quanto às prioridades políticas. A principal expectativa em relação à União Europeia é a restauração da natureza degradada por atividades humanas. A nível local, os europeus defendem sobretudo apoio financeiro para os setores diretamente afetados pelas medidas de conservação, regras claras para empresas e maior envolvimento das comunidades nas decisões.
O que se torna claro a partir dos dados recolhidos é que os europeus não encaram a biodiversidade como um tema periférico. Pelo contrário, veem-na como uma condição essencial para a saúde, a prosperidade económica, a segurança alimentar e a resposta às alterações climáticas.



