
A Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA) publicou a edição de 2026 do World Energy Transition Outlook, dedicada ao caminho de 1,5 °C. A conclusão central é que o progresso continua demasiado lento e desigual. A questão política já não é evitar qualquer ultrapassagem de 1,5 °C, mas limitar a sua dimensão e duração para regressar a uma trajetória compatível com essa meta.
O que o relatório diz
A IRENA compara três cenários. O cenário planeado, baseado nas políticas e metas dos governos até ao final de 2025, é compatível com um aquecimento superior a 2 °C. O cenário descarbonizante é mais ambicioso, e o cenário de 1,5 °C exige a transformação adicional necessária para regressar a essa meta. As emissões acumuladas de CO₂ associadas à energia, entre 2026 e 2050, rondariam as 840 gigatoneladas no primeiro cenário, 480 no segundo e cerca de 400 no terceiro.

A eletrificação aparece como a espinha dorsal da transição. No cenário de 1,5 °C, a eletricidade passaria de cerca de 23% do consumo final de energia a nível mundial para 35% em 2035 e mais de 50% em 2050. Na União Europeia chegaria a cerca de 64% em 2050.
Para isso, a capacidade renovável instalada teria de passar de cerca de 5,2 terawatts, em 2025, para 18,4 TW em 2035 e 38,2 TW em 2050. Seriam necessários mais de 1,3 TW de nova capacidade por ano na próxima década.
Redes e eficiência como estrangulamentos
O relatório alerta que a falta de infraestrutura para ligar as novas renováveis à rede já começa a travar a sua expansão. Redes, armazenamento e flexibilidade deixam de ser tratados como secundários face à produção renovável e passam a ser condições para a velocidade da transição.
Na eficiência energética, a melhoria média anual da intensidade energética tem ficado pouco abaixo de 2%, contra os cerca de 4% necessários para cumprir o objetivo de duplicar o ritmo até 2030.
Investimento e impacto económico
As necessidades acumuladas de investimento e despesa no cenário de 1,5 °C ultrapassam os 256 biliões de dólares entre 2026 e 2050, cerca de 10,3 biliões por ano. Isto representa mais 78 biliões do que no cenário planeado.
A IRENA estima que o investimento traga ganhos económicos. No cenário descarbonizante, o PIB mundial seria em média cerca de 0,7% superior ao do cenário planeado, e no de 1,5 °C cerca de 1,1%. Os preços finais da eletricidade seriam cerca de 9% mais baixos em 2035 e 15% mais baixos em 2050. O emprego nas renováveis chegaria a 84,2 milhões de postos de trabalho em 2050, cerca de 60% acima do cenário planeado.
Os benefícios não chegam de forma uniforme nem de imediato. O rendimento real das famílias fica abaixo do cenário planeado nos primeiros anos, devido ao investimento antecipado, aos preços da energia e a medidas como a tarifação do carbono, e só depois recupera, ficando cerca de 1,6% acima em 2050. Por isso, a agência insiste em medidas de acessibilidade, proteção social e apoio aos trabalhadores e comunidades afetadas, para manter a aceitação pública.
E Portugal?

O relatório só refere Portugal uma vez, no capítulo sobre planeamento integrado. Ao falar de países que demonstram os benefícios desta abordagem, diz que os Planos Nacionais de Energia e Clima da UE alinham renováveis, eletrificação, redes e eficiência energética num quadro comum, e que Portugal complementou essa abordagem com reformas para acelerar o licenciamento e com planeamento da rede de transporte. Essa referência assenta num guia jurídico de 2026 sobre geração, transporte e distribuição de eletricidade em Portugal. Não há dados, análises ou recomendações específicas sobre o país. Portugal aparece incluído apenas nas médias da UE e da Europa.



